A caverna parecia cada vez mais escura, mais assustadora. A umidade das paredes deixa sua pele molhada. Não, não é suor provocado pela tensão, é a água escura das paredes que escorre e estão cada vez mais perto. As paredes rochosas se fecham cada vez mais e você está entre elas.
Você sente um olhar, sabe que estão te observando. Há ódio nele, magoa. Uma magoa que estranhamente você pode sentir, e é familiar. E de repente uma mão te toca o ombro. Você não grita, seu corpo paralisa. Medo, pavor. Quem poderia ser? Quem estaria ali?
A mão é grande e o toque pesado. A respiração é forte, a pessoa mais alta. O silencio impera em meio a escuridão. Os sons ouvidos são as gotas que caem tenebrosamente calmas, no chão, formando possas; E os ruídos feitos pelos ratos que tentam desesperadamente fugir desse lugar, dessa prisão, tal como você.
E mais uma vez você se pergunta quem poderia está ali. Mas... Onde era ali? Então milhões de questões fazem sua mente voltar a ativa. O celebro procura uma resposta, mas tudo o que tem são perguntas. Cada vez mais perguntas se formam. Perguntas e mais perguntas.
Que lugar é esse? Você se apressa a averiguar. É uma caverna, sim. Paredes grandes e grossas. Escuras, cobertas de musgo. Água escorre pelas rochas. Vem do teto. Você avista rachaduras e gotas grossas vindo delas. O que faço num lugar como esse? Oh, como você gostaria de saber!
O que poderia está fazendo ali? Trabalhando? Talvez estivesse ali para pesquisar algo. Parecia-lhe bem pensar assim. Isso até se perguntar por que não sabia no que trabalhava. Piorou ao se perguntar seu próprio nome. Afinal quem sou eu? Seus lábios quase se movem tamanho o seu desespero.
Quase é capaz de perguntar a si mesmo quem é. Os dedos sobre seu ombro afrouxam e você lembra que não está só ali. Que há alguém, alguém que pode saber quem você é e o que faz ali. Talvez seja ajuda. Talvez tenha vindo lhe buscar para voltar a realidade.
E você se vira bem devagar. O local é escuro, mas você consegue enxergar. Não perfeitamente, mas o suficiente para não cair, bater ou tropeçar em nada. Seus olhos encontram azuis cristalinos. Tão puros que quase eram transparentes, cinzentos, quase se podia ver a alma.
Você pisca e sente o sol no rosto. Imagens turvas do rosto da pessoa quicam em sua mente. Você abre os olhos e se depara com um teto branco com uma fotografia de um céu lívido, sem nuvens e de um azul tão profundo quanto o dos olhos daquela pessoa. Você suspira e se senta na cama. Olha ao redor, as paredes brancas, o piso branco, os lençóis brancos, as cortinas brancas... Sem cor, sem definição.
- Quem você quer ser hoje?
Pergunta um homem todo de branco, com um logotipo vermelho desenhado no bolso do jaleco, que adentrou o local seguido por outro homem muito arrumado com um terno escuro e face inexpressiva. Um terceiro homem apareceu atrás dos dois, era baixo e carregava um caderno largo, de capa preta.
- Temos boas opções hoje. _ O de terno disse sem alterar a falta de expressão.
O caderno foi posto em seu colo e você o abriu. Parecia um portfólio. Uma foto e um texto abaixo. Folheou sem vontade até avistar um par de olhos azuis. Aqueles olhos. O homem de terno olhou de esgueira para a foto e antes que você pudesse ler o texto o caderno havia sido retirado de suas mãos.
- Bela escolha. _ Ele disse se afastando com o caderno.
- Vamos começar a preparar as coisas. _ Sorriu o homem de branco e se retirou da sala também.
- Aposto que se sairá bem. _ Se pronunciou pela primeira vez o homem mais baixo. – Como todas as outras vezes. _ Completou num tom diferente.
E você se viu só, novamente. Novamente naquele lugar branco, sem vida. Não por muito tempo, apenas o suficiente para você dar mais uma olhada na imagem do teto. E então diversas pessoas invadem a sala apressadas. Andam de um lado para o outro. Carregam aparelhos, papeis, agulhas... Tudo escurece.
- Oi? Você está me ouvindo?
- Sim, claro. _ Lhe pareceu sensato dizer.
- Lindos olhos, não?
Você se viu a frente de uma grande pintura. Os olhos estavam lá. Rodeados por um rosto delineado, e uma bela moldura de marfim. As paredes escuras possuíam um belo papel de parede. Os moveis bem desenhados, rústicos. Todos os detalhes eram belos, todos sem exceção.
Uma bela casa concluiu. O que fazia ali era o que queria saber, mas não mais do que como tinha chegado ali. Voltou sua atenção a pessoa ao seu lado. Por mais que fixasse seus olhos nela não conseguia descrevê-la, era como se não a registrasse. A cabeça latejou e você desistiu, não era importante.
- Sim, são muito bonitos. _ Você responde com sinceridade.
- Poderá olhá-los mais de perto hoje.
- Hum? _ Você virou na direção contraria a pintura, na direção do som.
- Serei sua companhia essa noite.
Os olhos... Estavam a sua frente.
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